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Futebol é mesmo “coisa de homem”?

Ainda hoje o maior adversário das jogadoras de futebol é a falta de incentivo, discriminação e o preconceito

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O Atenas Futebol Clube foi fundado em dezembro de 2018

Aos poucos, e com muito esforço, um grupo de mulheres bem resolvidas, de Linhares, vem provando que não. Futebol não é coisa de homem. O Atenas Futebol Clube, time fundado em dezembro de 2018 por iniciativa de algumas advogadas, vem se destacando no cenário do futebol feminino no Espírito Santo. O time é composto por advogadas, estagiárias e estudantes de direito.

A advogada Jessica Pereira Vilas Boas, (28), faz parte do grupo que fundou o Atenas. Ela conta que foi um processo lento, mas aos poucos conseguiram organizar o time. Relembra a atleta que joga no meio de campo e ataque.   

Começamos com três ou quatro meninas e aos poucos fomos convidando as colegas. Conseguimos o técnico, fomos formando a equipe, começamos os treinos, fomos tomando força, organizando a estrutura, conseguimos patrocínio, o apoio da Ordem dos Advogados, aqui do estado e da CAAES”.

O Atenas ganhou o torneio estadual de futebol feminino promovido pela Caixa De Assistência dos Advogados do Espírito Santo (CAAS) em 2019 e 2021, e foi vice-campeão em 2020. Este ano também jogaram no nacional de futebol de advogadas. O time se reúnem toda segunda às 20h para treinar e as vezes também treinam aos sábados.

PRECONCEITO, DESVALORIZAÇÃO E DISCRIMINAÇÃO

Proibido desde 1941, o futebol feminino só foi regulamentado no Brasil em 1983. Só a partir daí foi permitido que as mulheres pudessem competir, criar calendários, utilizar estádios, entre outras atividades. Mas mesmo assim, até hoje, o maior adversário das jogadoras é a falta de incentivo, discriminação e o preconceito, o que coloca as profissionais numa posição de precariedade.

A Advogada Karoline Comper, (30) no time há dois anos, sempre gostou de futebol e tinha o desejo de ser jogadora, mas não teve oportunidade. Atleta desde sempre, na época da escola jogou basquete e futsal, Karol diz que sente prazer em jogar. “Amo futebol, sinto prazer em jogar, é algo além do lazer. Quando jogo até me esqueço do trabalho e da correria do dia a dia”.

Porém, nem tudo são flores. Ela diz que convive com o descrédito das pessoas diariamente.

“Muitas pessoas ainda se surpreendem quando nós mulheres falamos que jogamos bola. Até dizem, a que legal, mas dá aquela risadinha, percebemos que para as pessoas é uma brincadeira, que estamos nos divertindo para passar o tempo e não que o futebol pode ser algo levando a sério por mulheres também, e que podemos sim ser referência também no futebol”.

Karoline Comper, zagueira do Atenas, está no time há dois anos

Outro ponto levantado pela zagueira do Atenas é a questão do machismo e preconceito. Segundo ela, na cabeça das pessoas é como se a mulher tivesse que ter um perfil masculino para jogar bola, enquanto uma mulher que se arruma jamais vai ser vista como jogadora de futebol. Assim como colocam em cheque a sexualidade das meninas que jogam.

“Percebo que é como se tivesse que ter um perfil para jogar bola. E na cabeça das pessoas o perfil de quem joga bola tem que ser masculinizado, então uma mulher mais delicada, que se arruma, usa maquiagem, salto alto, jamais vai ser vista como jogadora de futebol.  Tem também a questão do machismo e preconceito de algumas pessoas, de dizer que meninas que jogam são homossexuais. Consideram o futebol um esporte masculino, então se a mulher joga ela tem tendência de ser homossexual. É esse julgamento que ouço de algumas pessoas. Como se jogar bola definisse a minha sexualidade ou se sou mais ou menos mulher por causa disso”.

Roberta Casagrande Tozatto Martins, (38) é capitã do time e joga na zaga e meio de campo. Com uma vasta experiência no futebol, Roberta fala da desvalorização sofrida pelos times femininos e pontua que, até mesmo as próprias jogadoras, algumas vezes, não levam a sério.

PAIXÃO QUE VEM DE BERÇO

Roberta recebeu esse nome por causa do jogador Roberto Dinamite e sempre teve vontade de jogar futebol. Diferente de muitas meninas, Roberta recebeu muito apoio dos pais para que esse sonho se tornasse realidade.

Roberta levou o futebol a sério e teve oportunidade de jogar profissionalmente. Ela jogou no Vitória, aqui no Espírito Santo, no Vasco da Gama, passou no teste no Fluminense e chegou a jogar fora do Brasil, na Suíça.

Mas acabou optando por estudar e ter estabilidade, algo que desse a tão sonhada segurança financeira, e cursou direito.

Membro da diretoria do Atenas, Roberta fala dos planos do time para o futuro, inclusive sobre a formação também, de times de jogadoras que não são da área do direito.

AVANÇOS

Resultado de lutas e reivindicações, em setembro de 2020, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou a equiparação dos pagamentos de diárias e premiações feitos aos jogadores e às jogadoras das seleções brasileiras principais.

Jobson Bomfim Leite treina equipes de futebol masculina e feminina em uma escolinha de futebol de Linhares que atende crianças e adolescentes dos três aos 17 anos. Jobson conta que ao longo dos últimos 10 anos essa é a terceira vez que a escolinha abre vaga para meninas, e que dessa vez percebeu uma mudança significativa na procura.

Time feminino treinado por Jobson na escolinha de futebol que atende tanto meninos quanto meninas que querem jogar futebol

Estamos de volta com o futebol feminino há cerca de um ano, e lá no passado, quando começamos a primeira vez, era mais difícil ter meninas, hoje está mais fácil, temos cerca de 25 meninas e para 2022 já planejamos ter 30”.

Sobre a fala de Roberta, e também da Jessica, que assim como Roberta jogou em vários times do estado e no Palmeiras, e também abandonou o futebol devido à falta de estabilidade, Jobson diz que nos últimos anos muita coisa mudou e acredita que ainda vai melhorar muito com o passar dos anos.

“Com certeza da época da Roberta e da Jessica para hoje mudou muita coisa. Há 10 anos não tinha clube para as meninas jogarem, antigamente não era viável, hoje é viável. Vários clubes grandes tem times femininos, a seleção brasileira contrata praticamente de dois em dois meses. É uma questão de tempo, acredito que a situação do futebol feminino vai se nivelar com o masculino com o passar dos anos”.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

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