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Mulheres na pandemia: do inverno prolongado ao renascimento

Pesquisa aponta que 41% das mulheres que trabalharam de casa na quarentena relataram uma sobrecarga decorrente da conciliação entre emprego, cuidados com terceiros e tarefas domésticas.

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A pandemia impôs, de maneira abrupta, a necessidade do recolhimento. Suspendemos nossos modos de ser e estar no mundo e nos vimos obrigadas a entrar na toca e viver um inverno prolongado por mais de um ano.

Cada mulher lidou com essa transformação como pôde. Algumas se recolheram em um lar tranquilo e seguro. Outras, em vez de desfrutar os benefícios do home office, acumularam trabalhos. Segundo a pesquisa “ Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia” – da Gênero e Número, empresa social que discute questões de gênero e raça a partir de dados, e da Sempreviva Organização Feminista –, 41% das mulheres que trabalharam de casa na quarentena relataram uma sobrecarga decorrente da conciliação entre emprego, cuidados com terceiros e tarefas domésticas. Para algumas delas, parar não foi uma opção: seguiram trabalhando fora, mesmo que isso significasse um risco.

Apesar das diferenças, no momento em que o mundo todo foi obrigado a parar, inevitavelmente alguma atividade da nossa vida foi suspensa. Sem tantos escapes ou distrações, muitas mulheres entraram em contato com suas jornadas, escolhas, seus ritmos e corpos.

Escutaram mais a voz que vinha de dentro. Várias aprenderam a desfrutar desse momento e dessa pausa. É isso que pode explicar, por exemplo, o resultado da pesquisa realizada pela Consultoria Robert Half, que apontou que 44% das mulheres entrevistadas querem trabalhar em empresas que permitam o trabalho híbrido. Se quase metade das brasileiras deseja ficar alguns dias em casa, é porque descobrimos um benefício do recolhimento ao lar.

Para a psicóloga Beatriz Ramos, de 35 anos, a experiência do silêncio foi transformadora. Antes da pandemia, a vida dela, assim como a de tantas pessoas , era guiada por um ritmo apressado, quase desesperado. Com dois trabalhos, ela lidava com a ansiedade de cumprir horários e respondia a um modelo de produção acelerado. O cuidado com seu corpo ficava em último plano. Foi a pausa forçada do isolamento social que abriu espaço para um mergulho interno e para uma revisão sobre o que era prioridade. Para cuidar da saúde mental, ela resolveu se dedicar aos trabalhos manuais, que a confortam e acalmam. Cuidou do jardim, conectando-se com a energia da terra, e passou a cozinhar e pensar sobre o seu alimento. Coisas simples, mas que não cabiam na rotina pré-pandemia.

Ao abrir espaço para novas possibilidades, começamos a refletir sobre que vida queremos viver. No caso de Beatriz, o renascer veio com um pedido de demissão e com a abertura de uma empresa, que deu a ela flexibilidade de horários, além da oportunidade de trabalhar perto de casa.

A diminuição da cobrança externa por produção constante possibilitou que muitas e muitos de nós pudéssemos ganhar mais intimidade (ou chegar mais perto) do que chamo de pulso da vida, o reconhecimento de que não somos estáveis e estamos sempre alternando movimentos de recolhimento e expansão. O pulso da vida é feito de dia e noite, inverno e verão, lua nova e lua cheia. Esse ciclo faz parte de uma vida saudável.

Estamos inseridas num sistema patriarcal, que exige uma performance produtiva linear e aceleração constante. Ele deixa pouco (ou nenhum) espaço para pausas, tão importantes para acessar nossa força criativa. É o que eu chamo de vazio fértil. Para nos preenchermos de ideias novas, precisamos esvaziar as antigas. Um sistema saturado não dá condições para uma criação saudável. Felizmente, com a pandemia, essa ciclicidade parece ter ganhado um espaço mais central e protagonista na vida das mulheres. A pausa forçada nos levou a escutar e respeitar a sabedoria ancestral de nossos corpos e a sermos mais firmes em relação aos nossos limites.

Podemos entender o processo de ir para dentro de si como um período de hibernação, momento em que conseguimos encontrar e cuidar das raízes que vão sustentar nosso florescimento, ou, em outras palavras, momento em que temos a chance de firmar os pés no chão, de ouvir e fortalecer nossas verdades mais profundas, usando-as como condutoras das transformações que buscamos.

Foi assim para a paulistana Thais Habka, 35 anos. Sempre com muita dificuldade de dizer não, ela reconheceu no isolamento social uma oportunidade para conhecer e respeitar suas vontades. Com a restrição da convivência, ela se viu obrigada a dizer sim somente para quem e para o que lhe fazem sentir-se bem: “A pandemia escancarou coisas que, no nosso íntimo, já sabíamos, mas que não conseguíamos reconhecer. Hoje, digo não com muito mais facilidade e entendo que essa clareza veio da oportunidade de ficar recolhida dentro de mim”, afirmou.

Inspirada pelas histórias de Beatriz, Thais e de tantas outras mulheres que me contaram sobre suas descobertas, meu convite é vivermos esta Primavera refletindo sobre as experiências no período de isolamento social e pensando de que maneira vamos nos abrir para esse convite de florescimento que a nova estação traz.

O quanto você conseguiu, em meio a tantas atividades do dia a dia, se recolher, se conectar consigo mesma, respeitar seu ritmo interno e acessar as verdades que estão dentro (e não fora) de você? O que observou sobre como vive a sua vida e sobre como se relaciona com os outros e consigo mesma? O que esse inverno prolongado nos proporcionou e para onde vai nos guiar neste momento de sair, lentamente, da toca?

E, mais importante: o que passou a ser inegociável para você e que, seja como for esse retorno gradual, você vai querer manter na rotina? Agarre-se ao que você descobriu que é bom, às raízes que criou para sustentar um novo estilo de vida e leve como presente desse inverno uma nova verdade interior para seguir em frente.

Por Maria Barretto

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