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“O Som do Tapa”

No livro intitulado “O Som do Tapa”, escritora capixaba, Carla Guerson, retrata como violência, mesmo que não sentida na pele, afeta mulheres.

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A escritora capixaba, Carla Guerson, 39 anos, acaba de lançar seu primeiro livro. “O Som do Tapa”, da Editora Patuá, composto por 28 contos, traz como temática principal a violência contra mulher. Na obra Carla retrata como a violência, mesmo que não sentida na pele, afeta as mulheres. Como o som de um tapa: que reverbera e pode ser escutado (e sentido) mesmo por quem não foi pessoalmente atingido.

“É este som que nós, como mulheres, escutamos todo o tempo e nos atinge. Toda mulher entende sobre violência de gênero e não precisa ter apanhado para isso. Basta existir enquanto mulher na sociedade. Por isso o “som” do tapa e não o tapa em si. Com o desejo que de que esse som reverbere nos leitores”, pontua a escritora.

Livro “O Som do Tapa”, da escritora Carla Guerson

Nos do TuBusca batemos um papo com Carla Guerson sobre o livro, o trabalho dela como escritora e machismo.

TuBusca: Como se deu a escolha do nome do livro?

Carla Guerson: O som do tapa é o título de um dos contos e escolhi para ser o nome do livro pois acho que resume bem o que vai por dentro. É um livro sobre mulheres, que traz a violência como tema recorrente, embora não único.

TuBusca: De onde veio a inspiração para escrever o livro com essa temática?

Carla Guerson: Me perguntam se é um livro sobre violência e eu digo que não sei. Acho que não escolhi o tema violência, ele me escolheu, pois quando comecei a escrever sobre mulheres e as vivências do ser mulher na sociedade me deparei com o fato de como a violência de gênero está presente em vários momentos da nossa vida: desde a relação com o corpo até a maternidade compulsória, passando pelo feminicídio, relações abusivas, sobrecarga mental, etc. Tudo isso está retratado no livro por fazer parte da minha vida e das mulheres com quem convivo.

TuBusca: Li em uma entrevista, que a escolha dos temas que compõem o livro faz parte, alguns deles, da sua própria vivência. Conte mais sobre isso.

Trecho do conto que dá nome ao livro

Carla Guerson: Todos os contos levam algo de mim. Mesmo os que não tem nada de autobiográfico são escritos a partir da minha percepção, do que eu vejo, do que eu sinto, de como eu me colocaria naquela situação. Eu flerto um pouco com o teatro, desde a adolescência, por isso gosto de tentar me colocar no lugar do personagem, de viver na sua pele. Não à toa metade dos contos são escritos em primeira pessoa e mesmo os que são narrados na terceira pessoa são escritos com uma narrativa íntima, quase pessoal. Escrevo a partir do que eu vivo e muitas histórias são inspiradas em coisas que ouvi ou vivenciei com amigas também.

TuBusca: O que pretende despertar, na sociedade como um todo, com a sua obra?

Carla Guerson: Não sei se tenho pretensão de despertar algo. É um livro escrito a partir dos meus incômodos e por isso tenho a expectativa de que incomode um pouquinho o leitor, que o tire do seu lugar de conforto. Que haja um encontro.

TuBusca: E nas mulheres?

Carla Guerson: Acredito que a maioria das mulheres vai se identificar, de alguma forma.

TuBusca: Como é escrever sobre esse tema em um país tão machista?

Carla Guerson: Como eu disse, minha pretensão não era escrever sobre um tema. Eu escrevi sobre mulheres, a partir da minha perspectiva, como mulher escritora que eu sou. Eu me coloco no texto, não há disfarce: é um livro sobre mulheres escrito por uma mulher. Isso por si só já é difícil num mundo que não quer ouvir as mulheres ou só quer ouvi-las se estiverem encaixadas num “nicho”. A primeira dificuldade que enfrento, portanto, é ver minha literatura enquadrada como parte de uma “onda de literatura feminina”, como se isso fosse um demérito.

Eu já ouvi, por exemplo, que deveria escrever sobre temas mais “universais” e não só sobre “coisas feministas”. Mas, veja: O que é literatura feminista? O que é literatura universal? Quem definiu esses temas? Acredito que se colocar e fazer valer a sua voz como mulher no nosso país já um desafio e escrever é apenas parte disso.

TuBusca: Na sua opinião, esse é um tema que precisa ser mais e melhor trabalhado nas artes como um todo?

Carla Guerson: Sim, com certeza. Como no movimento das “Guerrila Girls” está na hora de deixarmos de sermos musas e exigirmos nossos espaços como artistas. Me considero parte deste movimento e por isso me apodero da narrativa sobre mulheres como protagonistas e não apenas como musas inspiradoras.

TuBusca: Esse é o seu primeiro livro. Fale um pouco sobre sua relação com a escrita?

Carla Guerson: Escrever para mim tem o lugar do desejo. É onde eu quero estar, onde eu me encontro. Costumo dizer que escrevo para tornar verdade as minhas mentiras ou mentiras as minhas verdades. É a forma que encontrei de me expressar e colocar para fora minhas inquietações. Escrevo desde muito nova: diários, poemas, já tive um blog. Depois comecei a publicar em revistas literárias e antologias, além de textos no medium e do Instagram. Este é o meu primeiro livro publicado por uma editora.

TuBusca: Por que a escolha desse gênero literário (conto) para falar de um assunto tão sério e necessário?

Carla Guerson: Quando eu resolvi escrever um livro e tentar publicá-lo eu não conseguia escolher uma só história. Eram muitas mulheres, muitas vozes que queriam ser ouvidas, várias personagens que já me habitavam. Comecei a fazer uma oficina de contos e descobri que gostava muito da linguagem mais rápida, das narrativas curtas, me identifiquei muito com essa forma de narrar. Então resolvi estudar e investir nessa forma de escrita e gostei muito do resultado. Com isso consegui escrever um livro que, embora denso, seja fluido e retrate uma quantidade maior de mulheres.

TuBusca: Como avalia o cenário literário capixaba em relação a essa questão de gênero?

Carla Guerson: Tenho acompanhado ótimas escritoras capixabas e vejo que há muito potencial para crescermos, mas ainda somos em menor número do que os homens publicados.

SINOPSE

Em O som do tapa, Carla Guerson coloca a faca na ferida. O conto que dá título à coletânea deixa claro o estilo da autora: sua escrita é direta, envolvente e contempla medos e segredos comuns às mulheres. Estupro, violência doméstica, perdas, maternidade, relacionamentos abusivos, sobrecarga feminina, conflitos familiares, sexualidade, autoimagem, dentre outros assuntos, são abordados com muita intimidade. Suas personagens femininas são marcantes e abrangem diferentes faixas etárias e classes sociais, apresentando uma seleção muito rica de tipos femininos, sem nenhuma romantização, ao longo dos 28 contos. Um verdadeiro apanhado sobre o que é ser mulher na nossa sociedade.

Valor: R$ 40 reais

Venda: Site da Editora Patuá.

Fotos: Divulgação

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